segunda-feira, 26 de abril de 2010

[as melhores coisas do mundo]

As Melhores Coisas do Mundo
As Melhores Coisas do Mundo, 2010
Laís Bondanzky



Laís Bodanzky tem 40 anos de idade. Para descobrir essa informação, no entanto, só mesmo pesquisando sobre a diretora, pois é impressionante a capacidade quase antropológica que possui de retratar universos ligados a faixas estárias diferentes da sua. Quem assiste ao maravilhoso Chega de Saudade sem conhecer Bodanzky, acredita facilmente que ali está a mão de uma diretora experiente, já na terceira idade, a retratar com imensa veracidade uma realidade muito próxima à sua própria. E quem assiste a esse As Melhores Coisas do Mundo na mesma situação, tem a impressão oposta: Laís Bodansky deve ser uma jovem diretora, iniciante, retratando o mundo adolescente que abandonou há pouco. Assim como alcançara um olhar extremamente verdadeiro em seu filme anterior, neste novo trabalho a diretora mergulha fundo no cotidiano de jovens da classe média paulista, e volta à superfície com um filme simplesmente... jovem. E por isso, também, assim como Chega de Saudade, verdadeiro do início ao fim.
Cabe uma ressalva: se seria mesmo de se esperar um grande filme a partir de uma história que tem como protagonistas pessoas marcadas (interna e externamente) pela vida, uma obra sobre adolescentes poderia facilmente cair na armadilha de ser banal e rasa, como muitos dos próprios retratados. Poderia ser uma versão fílmica de Malhação (ainda mais que até Fiuk, atual protagonista do folhetim Global, está no elenco do filme de Bodanzky), como aconteceu, por exemplo, com Podecrer! Mas As Melhores Coisas do Mundo passa longe desses problemas. Trabalha com estereótipos para revelar o quanto eles são, muitas vezes, reais, e arranca grandes interpretações de seus atores (como de costume em seu cinema, todos em cena estão bem, mas há pelo menos um desempenho verdadeiramente memorável, neste caso, o do estreante Francisco Miguez) - e não simplesmente porque estes são jovens, não-profissionais em muitos casos, e vivenciam cotidianamente os problemas de seus personagens, mas porque a diretora é mesmo brilhante nesse aspecto, desde Bicho de Sete Cabeças. Mas o principal mérito de Laís Bodanzky, acima de todos os outros (que não são poucos), é sua capacidade em não julgar o mundo que está filmando. Foi assim nos seus dois longas anteriores, e foi assim agora. Capacidade que, confesso, eu mesmo não tenho: em diversas vezes me peguei questionando-me sobre as atitudes de um ou outro personagem de As Melhores Coisas do Mundo, mesmo neste texto. Bodanzky alcança a vida adulta em sua cinematografia em um filme sobre a boa época em que ainda não precisávamos ser adultos.

sábado, 17 de abril de 2010

[chico xavier]

Chico Xavier
Chico Xavier, 2010
Daniel Filho


Durante boa parte de minha adolescência fui espírita - um período relativamente curto (cerca de uns 5 anos), mas importante de minha vida, período de formação intelectual e de construção de visão de mundo (e minha ruptura com a religião deu-se justamente por discordância intelectual, e não por acreditar ou não nos "fenômenos" nos quais o espiritismo acredita, até porque nunca me importei realmente com estes). Sou de família espírita e, logo, convivo com a religião desde sempre. Sei, portanto, da importância que Chico Xavier tem para seus adeptos: talvez o maior divulgador que o espiritismo já teve, o médium mineiro foi também um dos grandes responsáveis pela consolidação desta doutrina no Brasil e, por sua postura de total sacrifício diante da vida e de sua "missão", tornou-se para eles quase um santo.
A vida de Chico Xavier é cinematográfica demais para não virar filme, mas, conhecendo tal devoção, meu medo maior era que o resultado fosse a) mais que um filme sobre um religioso, um filme religioso, feito para converter novos adeptos ao espiritismo ou b) um grande melodrama choroso, nas mãos de um diretor geralmente fraco como Daniel Filho ou c) as duas coisas. Nesse sentido, Chico Xavier, o filme, é mesmo uma agradável surpresa. Parente próximo de biografias recentes no cinema brasileiro, como 2 Filhos de Francisco e Lula, o Filho do Brasil, o trabalho de Daniel Filho (que, sejamos justos, já havia realizado um bom trabalho em Tempos de Paz) surpreende justamente por, assim como esses dois filmes, apostar numa construção gradual de uma atmosfera de comoção, sem cenas grandiosas e/ou catárticas - o tom de Chico Xavier é de absoluta sobriedade. Algo que se reflete nos desempenhos de seu elenco, encabeçado por um inspirado Nelson Xavier (é, desde já, uma das grandes interpretações deste ano) e por um competente Ângelo Antônio, que garantem a transformação de um personagem quase etéreo, tamanha sua bondade e serenidade, em um homem de carne e osso.
A surpresa maior, entretanto, está na abordagem de Daniel Filho para a religião em questão. É claro que este é um filme apaixonado por seu protagonista e que acaba corroborando muitos de seus ideais, retratando como verdade o que muitos não-crentes poderiam questionar - nesse sentido, o grande erro de Chico Xavier é mesmo a caracterização do personagem Emmanuel que, a meu ver, não deveria sequer ser mostrado no longa, mas apenas citado, deixando no ar a dúvida sobre sua real existência ou não. No entanto, longe de ser um filme espírita, este é um filme sobre um espírita. Interessa a Daniel Filho o homem Chico Xavier, o personagem. E não a religião que ele professava. O diretor não quer converter ninguém a nada, até porque ele próprio se declara ateu. Algo que, infelizmente, não podemos esperar da enxurrada de filmes espíritas que vêm por aí - estes sim, muito provavelmente, trabalhos religiosos-militantes, prontos a transformar qualquer espectador incauto em mais um crente a encontrar nos mais de 400 livros publicados por Chico Xavier a explicação para todos os seus problemas.

terça-feira, 6 de abril de 2010

[curtinhas: no cinema]

Um Homem Sério

A Serious Man, 2009
Ethan Coen & Joel Coen


Ver personagens que representam pessoas "comuns" sofrendo em filmes do irmãos Coen não é exatamente uma novidade. Nesse sentido, Um Homem Sério parece encaixar-se perfeitamente em sua filmografia. No entanto, a obra representa também uma certa ruptura: de Gosto de Sangue a Onde os Fracos Não Têm Vez, passando por Barton Fink, Fargo, Queime Depois de Ler e outros, as "vítimas da vez" só se transformavam em tal ao cometerem alguma atitude tida como estúpida, que gerava então uma série de consequências – geralmente violentas. Em Um Homem Sério não. O personagem vivido pelo genial Michael Stuhlbarg não só é uma pessoa "comum", mas é também o que poderíamos chamar de "homem bom". Não comete nenhuma grande estupidez, nenhum crime (pelo contrário, é mesmo acusado de um crime de extorsão que não cometeu realmente), e, ainda assim, uma tempestade de tragédias despenca sobre sua cabeça. Por quê? Seria a maldição da cultura judaica, mostrada no prólogo do filme (e seria este, então, um comentário dos Coen sobre a jornada trágica dos judeus ao longa da história humana)? Acaba que, diante do final avassalador de Um Homem Sério, ficamos mesmo sem uma resposta concreta – afinal, a vida raramente trás respostas realmente exatas. Mas ganhamos uma pequena obra-prima



Um Sonho Possível
The Blind Side, 2009
John Lee Hancock


Durante boa parte da "corrida" para o Oscar 2010, um filme sobre esporte esteve presente na lista de possíveis indicados a melhor filme: Invictus, de Clint Eastwood. Acusado de "quadrado", clichê e melodramático, no entanto, o retrato da África do Sul de Mandela acabou esquecido, e um outro "filme de esporte" entrou em seu lugar: este Um Sonho Possível (que título sofrível e preguiçoso!), mais conhecido como "o filme pelo qual Sandra Bullock ganhou o Oscar". A verdade é que Um Sonho Possível é tudo o que Invictus foi acusado de ser, e na verdade não era: é um imenso lugar-comum, uma história de superação banal, "quadrada", formulaica, irritante de tão previsível. Não há um momento verdadeiro no filme (ao contrário do que ocorre na obra de Eastwood), e só sendo mesmo muito pouco exigente para conseguir se emocionar com essa bobagem. Ruim, muito ruim.

Ah, e a Sandra Bullock... bem, ela está bem, verdade seja dita. Tem uma personagem carismática nas mãos, e a interpreta com competência. Mas, Oscar? Foi mesmo um ano fraco (Meryl Streep também não merecia, pela bomba Julie & Julia), mas que dessem a estatueta para uma novata, qual o problema? Carey Mulligan e Gabourey Sidibe estavam à disposição. Era só escolher.


Direito de Amar
A Single Man, 2009
Tom Ford


Plasticamente esplendorosa, a novela mexicana Direito de Amar... perdão, my mistake, mas é que com um título como esse... enfim, o filme A Single Man (na verdade, esse título brasileiro merece entrar para a história como um dos piores trabalhos de tradução já realizados no país, o que, levando-se em conta as barbaridades já cometidas por aqui neste campo, não é pouco) peca por seu roteiro vazio. O estilista Tom Ford, em sua estreia como diretor de cinema, parece contentar-se em criar uma imagem mais bela que a outra - algo que faz com imenso talento, especialmente através das mudanças no tom da fotografia que, confesso, me conquistaram –, mas esquece de contar a poderosa história de amor que tinha em mãos. Daí, resta para salvar o filme, além de seu visual, um impressionante Colin Firth: o ator inglês, tradicional coadjuvante de comédias e dramas românticos, constrói um protagonista sofrido, melancólico, encantador em sua dolorosa solidão, e, acima de tudo, humano. Firth preenche a tela em momentos de silêncio absoluto, e nem mesmo uma ótima Julianne Moore consegue competir com sua presença magnética. Talvez fosse o caso de dizer que Direito de Amar pertence a Colin Firth. Mas não: o filme, em toda sua fragilidade, pertence mesmo a Tom Ford, o que acaba sendo uma pena.