domingo, 8 de fevereiro de 2015

A Teoria de Tudo e O Jogo da Imitação



Uma Mente Brilhante, cinebiografia careta e esquecível do matemático John Nash dirigida por Ron Howard e premiadíssima no Oscar 2002, foi duplamente revisitada no último ano: em A Teoria de Tudo, de James Marsh, que conta parte da vida do físico Stephen Hawking e emula do filme de Howard seu lado familiar/sentimental, as dificuldades de uma esposa dedicada na lida com um marido genial, mas com sérios problemas de saúde; e em O Jogo da Imitação, de Morten Tyldum, que flerta com a paranoia política que, em alguns momentos, aproximava Uma Mente Brilhante do thriller de espionagem, além de também ser protagonizado por um matemático brilhante e problemático (Alan Turing, responsável por quebrar os códigos utilizados pela Alemanha nazista na Segunda Guerra Mundial, colocando os Aliados em importante vantagem no conflito).

Como Uma Mente Brilhante, A Teoria de Tudo e O Jogo da Imitação vêm sendo celebrados pelos profissionais de cinema do mundo anglo-saxão, culminando, claro, em muitas indicações ao Oscar – com o filme de Marsh tendo grandes chances de sair com a estatueta de melhor ator, para o esforçado (nada mais que isso) Eddie Redmayne. Como Uma Mente Brilhante, A Teoria de Tudo e O Jogo da Imitação são filmes conservadores, estética e tematicamente, quadrados, óbvios do primeiro ao último plano. Considerando a força das histórias de Hawking e Turing, trata-se de uma tragédia. Por que abordar, por exemplo, a homossexualidade de Turing de maneira tão piegas, praticamente limitando-a a uma história de amor, cheia de pureza, na época de escola? Heróis de guerra não podem sentir desejos carnais por outros homens e manifestá-los na tela? É quase como se o filme de Tyldum castrasse Turing novamente. No caso de A Teoria de Tudo, por que construir uma imagem santificada de Jane Hawking, privando-se da clareza ao se referir a um caso extraconjugal da personagem? A mulher de Stephen Hawking tinha mesmo de ser representada como essa figura inabalável em sua retidão moral, diante de todas as adversidades decorrentes de uma vida ao lado de um homem gravemente doente? O entendimento dessas escolhas de Marsh e Tyldum passa pelo endosso recorrente das premiações a esse tipo de filme. Se Uma Mente Brilhante e O Discurso do Rei, outro filme careta, foram tão celebrados recentemente, porque não seguir esse modelo?

É claro que filmes de formato clássico podem ser bons. Aliás, muitas das maiores obras-primas da história do cinema se enquadrariam nessa definição. Mas para alcançar esse feito é preciso um mínimo de competência no trato com os personagens e temas abordados. Nem isso A Teoria de Tudo e O Jogo da Imitação conseguem fazer. A biografia de Stephen Hawking, por exemplo, comete o erro crasso de não entender seu próprio tema: o tempo. Não sentimos em momento algum a urgência dos feitos de Hawking, considerando o prognóstico dos médicos de que ele viveria apenas mais dois anos. Recebemos essa informação junto com o personagem e... nada mais. O filme não volta a fazer referência a isso, não há sensação real de passagem do tempo e deixamos de temer pela possibilidade de morte repentina do sujeito. Mesmo quem não conhece Hawking fica com a sensação de que tudo vai terminar bem. Surge daí um filme insosso e que ainda tem a cara de pau de resumir a vida de seu protagonista a uma tosca mensagem de autoajuda ao final. Terrível. Como são terríveis os clichês de O Jogo da Imitação e sua frase-mote, igualmente tosca e de autoajuda (sugada de O Senhor dos Anéis?), que tenta nos convencer de que qualquer pessoa pode fazer a diferença no mundo.


A Teoria de Tudo 
The Theory of Everything, 2014
James Marsh

O Jogo da Imitação  
The Imitation Game, 2014
Morten Tyldum

5 comentários:

Kahlil Appel disse...

Achei a 'Teoria de Tudo' uma representação extremamente melodramática da vida de Stephen Hawking. Já 'O Jogo da Imitação' me agradou e muito!

http://filme-do-dia.blogspot.com.br/

Wallace Andrioli Guedes disse...

Puxa, Kahlil, vejo os dois no mesmo (baixo) nível. O conservadorismo presente em ambos os filmes me irrita profundamente.

Giliard Tenório disse...

Pronto, conseguiu. Sinto-me convencido da fragilidade de "A teoria de tudo" por esta análise em que vc enfatiza o quanto o aspecto do "tempo" é mau utilizado. Dê-se por satisfeito, heheh.

Wallace Andrioli Guedes disse...

Vitória!

Irasema Saravia disse...

O roteiro e a produção são excelentes! Eu amo Russell Crowe em "Uma Mente Brilhante" ❤️ É um ator lindo, carismático e talentoso. Dois Caras Legais Filme Legendado é um dos seus filmes mais recentes. Tem um bom roteiro e visualmente nos limpa os olhos. Para uma tarde de lazer é uma boa opção! :)